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Encefalite Herpética: Quando suspeitar ?

por Guilherme Cunha
Publicado: Última atualização

Introdução
A encefalite herpética é uma condição incluída no grupo das encefalites virais e compreende um processo inflamatório do parênquima encefálico com presença de disfunção neurológica devido a infecção viral. É ocasionada por agentes da família herpesviridae: Herpes simplex tipo 1 (HSV1); Herpes simplex tipo 2 (HSV-2); Vírus Varicela-Zoster (VZV); Citomegalovírus (CMV); Vírus Epstein – Barr (EBV); Herpesvírus humano tipo 6 (HHV-6) e Herpesvírus humano tipo 7 (HHV-7).

Epidemiologia
É a forma mais comum de encefalite viral esporádica e ocorre mais comumente em crianças, idosos e imunodeprimidos. A infecção pelo HSV1 corresponde a cerca de 75% dos casos, seguido pelo HSV-2, VZV, CMV e EBV. Possui altas taxas de morbimortalidade de acordo com: o agente viral, o diagnóstico tardio e o retardo do início do tratamento, podendo gerar sequelas neurológicas permanentes. A encefalite por HSV especificamente não possui caráter sazonal ou padrão geográfico característico, o que difere de outras infecções de etiologia viral, como nas arboviroses.

Quadro Clínico
O quadro clínico depende da região encefálica acometida e de sua susceptibilidade à infecção. De forma geral, as manifestações clínicas possuem início agudo (24-72h), com presença de sintomas sistêmicos, tais como: febre, adenopatia, mialgia, artralgia, rash cutâneo, sintomas respiratórios e gastrintestinais em associação com sinais e sintomas focais ou difusos de disfunção neurológica, incluindo alteração do nível de consciência, podendo variar de agitação até ao coma, alucinações, mudanças no comportamento e de personalidade, convulsões, afasia, ataxia, movimentos involuntários, hemiparesia, papiledema e até envolvimento hipotalâmico (ex: SIADH).

Diagnóstico
Critérios diagnósticos para encefalite de acordo com: Consensus Statement of The International Encephalitis Consortium 2013 Critério Maior (obrigatório): Pacientes que buscaram ajuda médica apresentando alteração do estado mental (definida como rebaixamento ou alteração do nível de consciência, letargia ou mudança de personalidade em um tempo ≥ 24h com nenhuma outra causa identificada)

Neuroimagem

Encefalite por VZV: Lesões podem ocorrer no cerebelo e no tronco encefálico; a presença de isquemia e hemorragia acometendo as regiões cortico-subcorticais sugere vasculopatia. Também pode haver acometimento dos lobos temporais.

Encefalite por HSV -1: RM de crânio sequência FLAIR: Acometimento assimétrico da porção mesial dos lobos temporais, lobos orbitofrontais e córtex insular com edema, podendo apresentar restrição à difusão da água e hemorragias em estados avançados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Testes Diagnósticos no LCR

Medidas Iniciais do Tratamento

Consiste no tratamento de suporte com controle da pressão arterial e temperatura, da pressão intracraniana, garantindo
uma via área pérvia com suplementação de oxigênio se necessário e controle de crises convulsivas se existentes.

  • Tratamento empírico: Na suspeita de encefalite herpética não descartada nas primeiras horas de internação, deve-se iniciar tratamento empírico com aciclovir por via IV na dose de 10 mg/kg de 8/8h o mais breve possível, evitando sequelas e possíveis complicações.
  • Tratamento específico:

➔ HSV: tratamento com aciclovir durante 14 a 21 dias. Reavaliação por PCR no LCR após esse período, e se ainda for positivo, realizar tratamento de manutenção e repetição da análise do líquor semanalmente até que o resultado seja negativo para interromper o uso do fármaco.
➔ VZV: tratamento igual ao do HSV. Se houver evidências de vasculopatia, recomenda-se o uso de corticóides.
➔ EBV: Não há fortes evidências na literatura para o uso de aciclovir e ganciclovir na encefalite por EBV.
➔ CMV: tratamento com ganciclovir por 4 semanas
➔ HHV-6/7: tratamento com ganciclovir e foscarnet isolados ou em combinação são indicados.

 

Vitor Pereira Machado

  • Monitor do Neurocurso.com
  • Acadêmico do 5 ano do curso de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, campus Três Lagoas (UFMS – CPTL).
  • Exerceu o cargo de presidente da liga de neurologia e neurociências (LANN) no período 2019/2020
  • Membro discente da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

 

Referências Bibliográficas

  • BRASIL NETO, J. P.; TAKAYANAGU, O. M. Tratado de neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2. ed. Elsevier, 2013. Costa BK, Sato DK.
  • Viral encephalitis: a practical review on diagnostic approach and treatment. J Pediatr(Rio J). 2020;96(S1):12—9. TYLER, Kenneth L. Acute Viral Encephalitis. The New England Journal of Medicine, Aurora, US, v. 379, n. 6, p. 557-566, ago./2018.
  • VENKATESAN, A. et al. Acute encephalitis in immunocompetent adults. The Lancet, Liverpool, UK, v. 393, n. 1, p. 702-716, fev./2019.
  • VENKATESAN, A. et al. Case Definitions, Diagnostic Algorithms, and Priorities in Encephalitis: Consensus Statement of the International
    Encephalitis Consortium. Clinical Infectious Diseases, Baltimore, US, v. 57, n. 8, p. 1114-1128, jul./2013

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Autor

  • Médico Neurologista com forte background em Neurociências e Neuroemergencismo. Formado pela faculdade de medicina da UFMG, mestre em Neurociências pelo Núcleo de Neurociências da UFMG. Residência médica em Neurologia pelo Hospital Metropolitano Odilon Behrens. Membro da equipe de Neuroftalmologia da Santa Casa de Belo Horizonte onde realizou fellow na área. Ex-docente de cursos de graduação e pós-graduação em medicina e neuropsicologia. Cofundador e editor do Neurocurso.com

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