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Cefaleia por uso excessivo de medicamentos

por Guilherme Cunha
Publicado: Última atualização

O que é uma cefaleia por uso excessivo de medicamentos?

Consiste em um dos quadros mais comuns de cefaleia crônica diária, oriunda do uso indiscriminado de analgésicos. O uso excessivo de medicamentos é um importante fator de risco para aumento da frequência, intensidade e causa comum de relato de mudança de padrão de cefaleia prévia. Esta condição é diagnosticada quando o paciente apresenta cefaleia por pelo menos 15 dias ao mês e faz uso de analgésicos simples por pelo menos 15 dias ou múltiplos analgésicos por pelo menos 10 dias.

Epidemiologia:

Sua epidemiologia é mais frequente em mulheres do que em homens (pode ser pela maior prevalência de migrânea em mulheres). Há relatos de até 15% de prevalência em centros especializados em cefaleia. A prevalência de cefaleia por abuso de analgésico depende fortemente dos critérios diagnósticos utilizados.

Principais medicamentos relacionados:

  • Analgésicos comuns (ibuprofeno, acetaminofeno/paracetamol, ácido acetilsalisílico, metamizol e outros).
  • Ergotamínicos
  • Analgésicos combinados (contendo cafeína, barbitúricos e outras substâncias adicionadas a analgésicos simples).
  • Triptanos
  • Opióides

Atendimento no contexto da Urgência:

  • Qual duração do abuso de AINE, quais medicamentos são utilizados, com que frequência o paciente faz uso ?
  • Identificar motivos da falha terapêutica da cefaleia primária: Gatilhos como privação de sono, alimentação, ansiedade, abuso de tempo de tela, sedentarismo, etc.
  • Uma anamnese bem colhida direciona para um raciocínio clínico de exclusão. Há necessidade de neuroimagem? Depende da sua clínica. Essa cefaleia está associada a outras manifestações clínicas?
  • Orientar o paciente que a suspenção abrupta do AINE pode desencadear cefaleia rebote intensa e grave de duração de 2-10 dias. Por esse motivo deve-se sempre tratar a cefaleia por abuso simultaneamente.
  • Exame físico direcionado: lembrar dos sinais de alarme da cefaleia – SNOOP
  • A recidiva de abuso de AINE pode chegar a 30%-50%

Motivos relacionados ao abuso de AINE:

As razões apontadas pelos pacientes para o consumo de analgésicos num estudo efetuado por Ferrari e Sternieri foram:

  • Por conselho médico de tomar o analgésico no momento oportuno – 57%
  • Dificuldade em suportar a dor – 67%
  • Medo que a dor surja se não tomarem – 62%
  • Reaparecimento da dor depois do consumo – 30%
  • Acreditar que não há cura – 65%
  • Necessitar do analgésico para trabalhar melhor – 62%
  • Diminuir a ansiedade – 45%
  • Para ajudar no sono – 18%

Fisiopatologia: 

Estudos revelaram aumento da expressão de CGRP, hiperexcitabilidade cortical, sensibilização central a dor, hipomodulação do sistema endocananinoides e hipometabolismo de áreas de controle de dor ao FDG-PET (fluordoxiglicose).

Como tratar cefaleia por abuso de AINE?

O paciente deve passar por uma consulta médica abrangente para que os fatores de risco e gatilhos para cefaleia primaria (que leva ao uso excessivo de analgésicos) sejam identificados. Orientar quanto a possibilidade de síndrome de abstinência e de cefaleia rebote.

As evidência são ruins, mas os esquema mais utilizados são:

  • Prednisona 60mg/dia 1x ao dia por dia 5-7 dias
  • Amplictil (clorpromazina) IM 01 ampola 25mg/5ml + hiperidratação venosa no contexto da urgência
  • Amplictil 4% oral (cada gota 1mg): orientar paciente a titular dose (iniciar 3-5 gotas a noite)
  • Introdução de medicação profilática para controle da cefaleia primaria
  • Orientação ampla e contundente da importância de se evitar uso excessivo de medicamentos para cefaleia

Referências:

  1. Rasmussen BK. Epidemiology of headache. Cephalalgia. 1995;(15):45- 68.
  2. Speciali JG. Cefaleias. In: Lopes AC, editor. Tratado de clínica médica. 2ª ed. São Paulo: Roca; 2009. p. 2233-2248.
  3. Bigal ME, CA, Speciali JG. Epidemiology of headache in two primary care units. Headache. 2000;40(3):241-7.
  4. Friedman BW, Lipton RB. Headache emergencies: diagnosis and management. Neurol Clin 2012; 30: 43-59.
  5. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The international classification of headache disorders, 3rd edition. Cephalalgia 2018, 38(1): 1-211.
  6. Queiroz LP, Silva Junior AA. The Prevalence and Impact of Headache in Brazil. Headache 2015; 55(S1): 32-38.
  7. Speciali JG. Entendendo a enxaqueca. Ribeirão Preto: Funpec; 2003.
  8. May A, Schulte LH. Chronic migraine: risk factors, mechanisms and treatment. Nature Reviews Neurology 2016; 12: 455-464.
  9. Swadron SP. Pitfalls in the management of headache in the emergency department. Emerg Med clin North Am 2010; 28: 127-147.

Felipe dos Santos Souza

  • Monitor do Neurocurso.com
  • Graduando em Medicina pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)
  • Diretor de Extensão da Liga Acadêmica de Urgência e Emergência de Cáceres (LAUREMC) e presidente da Liga Acadêmica de Fisiologia e Farmacologia de Cáceres (LAFFC)
  • Participa de grupos de estudos em Emergência, Imunologia e Neurologia.

 

Autor

  • Médico Neurologista com forte background em Neurociências e Neuroemergencismo. Formado pela faculdade de medicina da UFMG, mestre em Neurociências pelo Núcleo de Neurociências da UFMG. Residência médica em Neurologia pelo Hospital Metropolitano Odilon Behrens. Membro da equipe de Neuroftalmologia da Santa Casa de Belo Horizonte onde realizou fellow na área. Ex-docente de cursos de graduação e pós-graduação em medicina e neuropsicologia. Cofundador e editor do Neurocurso.com

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