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O Desafio da Interação entre Neurociências, Tecnologia e Educação

por Cleiton Lopes Aguiar [a] e Gisele Souza de Oliveira [b]

 “Formular hipóteses, desenvolver métodos e testar rigorosamente com os recursos disponíveis foi a estratégia de sobrevivência de nossos primos mais antigos, que batizamos de Homo habilis. É interessante ressaltar que essa capacidade nunca foi tão moderna e necessária como é hoje para a validação da interação entre neurociências, tecnologia e educação”.
Há três milhões de anos surgiam os primeiros hominídeos, nossos mais antigos ancestrais. Um milhão de anos depois surgia uma espécie muito interessante, chamada pelos pesquisadores de Homo habilis. Esses hominídeos, de fato, eram bastante habilidosos e capazes de construir suas próprias ferramentas para se alimentar, caçar e, talvez, até brigar pelo amor de uma bela fêmea. A capacidade de inventar ferramentas com base em uma hipótese sobre o mundo, e a vontade de testá-la, certamente surgiu nessa época. Ou seja, uma característica que parece ser exclusivamente do ser humano (Homo sapiens sapiens) já estava presente nos nossos primos mais distantes, os Homo habilis.
Estudos que investigaram o tamanho dos fósseis de crânio dos Homo habilis chegaram à conclusão de que o cérebro dos nossos primos já era bastante desenvolvido. Mas como nem tudo é um mar de rosas, nossos primos prodígios tinham um adversário contemporâneo: osParanthropos boisei, ou simplesmente P. boisei. Ao contrário dos Homo habilis, esses hominídeos eram provavelmente bastante fortes e tinham a mandíbula capaz de arrancar e triturar grandes raízes. Muitos pesquisadores acreditam que os P. boisei eram mais adaptados ao seu ambiente do que os Homo habilis, que eram mais fracos e tinham a mandíbula menor. Entretanto, nos milhares de anos subsequentes ao surgimento desses hominídeos, observou-se uma grande mudança nas pressões ambientais, geradas pelas mesmas forças que criaram a enorme variedade de ambientes na África e que continuam a moldar o continente nos dias atuais. Nesse período, novos habitats surgiram e, consequentemente, novos animais para explorá-lo. Apanhados no meio dessas mudanças, os P. boisei passaram a viver em um mundo no qual não estavam preparados. As modificações rápidas na vegetação e, em alguns momentos, longos períodos de seca, fizeram com que as raízes nutritivas, que os P. boisei utilizavam como alimento, ficassem muito escassas. Talvez por esse motivo, esses seres fortes e bem adaptados foram extintos e hoje não possuem nenhum descendente.

Ao contrário dos P. boisei, os Homo habilis tinham um jeito mais generalista de lidar com o mundo. Como mencionado anteriormente, eles não eram fortes, nem tinham dentes poderosos. Entretanto, tinham algo que hoje valorizamos muito: um cérebro grande (50% maior que os do P. boisei). Assim, durante os períodos de escassez de alimento e de falta de água, os Homo habilis desenvolveram ferramentas e estratégias de interação social que puderam mantê-los vivos e dar origem a novos descendentes, que mais tarde se ramificariam em novas espécies, entre elas a nossa. A maneira com que os Homo habilis gerenciavam seus recursos e desenvolviam ferramentas há 2 milhões de anos, sugere que alguns princípios fundamentais do comportamento humano como a formulação e teste de hipóteses por meio de desenvolvimento de métodos objetivos sejam características altamente conservadas ao longo da evolução, representando alto valor adaptativo para a manutenção de nossa espécie [1, 2, 3]. Para maiores detalhes, ver o excelente documentário produzido pela BBC sobre evolução humana: Walking with cavemen

Leia o artigo publicado na íntegra na Revista Tavola Online

[a] Cleiton Lopes de Aguiar

[b] Gisele Souza de Oliveira,  É graduada em comunicação social com habilitação em jornalismo e tem experiência em produção e finalização de vídeos. Há dois anos é jornalista responsável pelas produções impressas, audiovisuais e virtuais da Casa da Ciência do Hemocentro de Ribeirão Preto. É membro do Grupo Verde.