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A evolução das emoções de cunho moral em um contexto de jogos de reciprocidade

Diversos pesquisadores, incluindo o psicólogo evolucionista Steve Pinker, defendem que a principal fonte das emoções dos Homo sapiens é o próprio relacionamento humano. Ou seja, as emoções mais ardentes são evocadas não por paisagens, aranhas, baratas ou sobremesas, mas sim por outras pessoas. Algumas emoções, como a raiva fazem-nos querer ferir as pessoas; outras, como o amor, simpatia e gratidão fazem-nos querer ajudá-las. Para entender essas emoções, precisamos primeiro compreender por que os organismos deveriam ser projetados para ajudar ou ferir uns aos outros.

A afirmação de que as emoções sociais funcionam em benefício do grupo na realidade representa um afastamento radical do darwinismo. A seleção natural só poderia selecionar grupos com membros altruístas se  cada grupo pudesse fazer cumprir um pacto garantindo que todos os seus membros permanecessem altruístas. Isso porque um animal  egoísta colheria as recompensas do altruísmo dos demais sem arcar com custo algum.

A seleção natural é o efeito cumulativo de êxitos relativos de diferentes replicadores. Isso significa que ela seleciona os replicadores que replicam melhor, ou seja, os egoístas. Se os organismos fossem os replicadores, todos eles seriam egoístas. Mas os organismos não se replicam, os genes sofrem variabilidade de geração para geração, de modo que nós, por exemplo, não somos como nossos pais, embora compartilhemos boa parte de seus materiais genéticos. Os genes, e não os corpos, replicam-se, e isso significa que os primeiros, e não os últimos, deveriam ser necessariamente egoístas.

A maneira de um gene, presente em um animal portador de sistema nervoso central, se replicar é programar as conexões neurais para que os prazeres e sofrimentos deste animal levem-no a agir de modo que conduzam a mais cópias do gene. Frequentemente, isso significa fazer com que um animal aprecie os estados que lhe permitem sobreviver e reproduzir-se, por exemplo, sentir prazer quando estamos de estômago cheio. No geral, os animais estão muito mais interessados neles próprios do que no seu grupo, espécie ou ecossistema. Uma exceção seriam os parentes que, em última análise, ajudariam na replicação do genoma do indivíduo em questão.

O altruísmo pode ser definido como sendo um comportamento que visa beneficiar outro animal em detrimento de si mesmo. Quando o altruísmo evolui porque o altruísta é aparentado com o beneficiário, de modo que o gene causador do altruísmo beneficia a si mesmo, o termo empregado é seleção por parentesco. Mas, quando examinados a psicologia do animal que assim se comporta, podemos dar outros nomes ao fenômeno: amor, compaixão, amizade etc. Nesse sentido, a essência do amor, por exemplo, seria sentir prazer com o bem-estar do outro e sofrer quando o outro é prejudicado. Os sacrifícios feitos por amor são muitas vezes modulados segundo o grau de parentesco.

A teoria do gene egoísta muitas vezes é deturpada por pessoas que afirmam que os animais tentam propagar seus genes. Os genes “tentam” propagar-se projetando o sistema nervoso dos animais de modo que estes amem seus parentes e procurem mantê-los aquecidos, alimentados e seguros. É importante não confundir os motivos metafóricos dos genes com os motivos mais profundos, verdadeiros e inconscientes das pessoas. Os animais amam seus filhos não porque desejam propagar seus genes, mas porque isso lhes é inevitável.

Contudo, os animais não são bons apenas com seus familiares. Em princípio, o altruísmo recíproco seria uma troca de favores. É óbvio que a probabilidade de surgir um aproveitador dentro de um grupo altruísta não é baixa. Deste modo, este aproveitador recebe o favor, mas dedica o seu tempo para outras atividades que não a retribuição do favor, mas sim a alimentação e a reprodução. Dentro de algumas gerações não será surpresa se a característica altruísta do grupo em questão estiver desaparecido, predominando os parentes dos que foram egoístas em tempos remotos. Imaginemos então, que dentro de um outro grupo altruísta surgissem indivíduos que só prestassem um favor àqueles que lhes fizessem o mesmo, anulando a possível vantagem que um indivíduo trapaceiro teria. Acontece que dentro deste mesmo grupo, estão presentes indivíduos que prestam favores de vez em quando ou de maneira parcial. Estes acabam recebendo mais favores do que prestando, o que lhes traz vantagem adaptativa. É possível também o surgimento de indivíduos que consigam reconhecer comportamentos como o descrito anteriormente, evitando prestar favores para estes. Um animal deve ser capaz de conceder um grande benefício a outro a um custo pequeno para si mesmo, e os papéis comumente tem de se reverter. Os animais precisam destinar parte de seu encéfalo ao reconhecimento uns dos outros como indivíduos e, se a retribuição vier muito depois do favor, também a recordação de quem os ajudou e de quem se recusou a ajudá-los e, conforme essa lembrança, decidir como conceder ou negar favores.

No caso dos Homo sapiens há uma adaptação particular ás demandas do altruísmo recíproco. A linguagem, por exemplo, é um bem de troca ideal que proporciona benefícios para quem a recebe e baixíssimos custos para o emissor. A mente humana é equipada com módulos estipuladores de objetivos que regulam a distribuição de favores; como no caso do altruísmo orientado para os familiares, o altruísmo recíproco é a expressão behaviorista de todo um conjunto de pensamentos e emoções.

As demandas do altruísmo recíproco são provavelmente a fonte de muitas emoções humanas. Coletivamente, elas compõe uma grande parte do senso moral. O equipamento mínimo é um detector de trapaceiros e uma estratégia olho por olho que negue ajuda adicional a um trapaceiro bruto. Trapaceiro bruto é aquele que se recusa absolutamente a retribuir ou que retribui com tão pouco que o altruísta recebe de volta menos do que o custo de seu favor inicial. Mas a verdadeira trama começa com a existência de um modo mais sutil de trapacear. O jogo torna-se mais complicado – a seleção favorece a trapaça no caso de o altruísta não descobrir ou não interromper seu altruísmo, caso a descubra. Isso conduz a melhores detectores de trapaceiros; o que leva a trapaças mais sutis; o que acarreta detectores para trapaças mais sutis; o que origina táticas para safar-se com trapaças sutis sem ser detectado pelos detectores de trapaças sutis e assim por diante. Cada detector deve acionar um módulo de emoção que estipule o objetivo apropriado – continuar a retribuir, romper relacionamento, etc. Sendo assim, por engenharia reversa, é possível identificar as emoções de cunho moral como estratégias no jogo da reciprocidade.

Afeição seria a emoção que inicia e mantém uma parceria altruísta. Aproximadamente, consiste na disposição para oferecer um favor a alguém e se dirige àqueles que parecem dispostos a oferecer favores em retribuição. Gostamos de pessoas que são gentis conosco e somos gentis com as pessoas de quem gostamos.

Raiva protegeria a pessoa cuja gentileza deixou-a vulnerável à trapaça. Quando a exploração é descoberta, a pessoa classifica o ato ofensivo como injusto e sente indignação e desejo de reagir com uma agressão moralista: punir o trapaceiro rompendo o relacionamento e às vezes ferindo-o.

Gratidão aferiria o desejo de retribuir com os custos e benefícios do ato original. Somos gratos às pessoas quando o favor que nos prestaram ajudou-nos muito e custou-lhes muito.

Simpatia, seria o desejo de ajudar os que estão necessitados, pode ser uma emoção para conquistar gratidão. Se as pessoas são mais gratas quando mais precisam de um favor, uma pessoa necessitada é uma oportunidade de fazer um ato altruísta render o máximo.

Culpa poderia torturar um trapaceiro que está correndo perigo de ser descoberto. Se a vítima reage interrompendo toda ajuda futura, o trapaceiro terá pago caro. Ele tem interesse em impedir esse rompimento compensando a iniquidade e abstendo-se de cometê-la novamente.

O próximo passo seria a capacidade de discriminar entre emoções reais e simuladas. Temos então a evolução de confiança e desconfiança. A procura de sinais de fidedignidade transforma-nos em leitores de mentes, alertas para qualquer hesitação ou incongruência que traia uma emoção fingida. Como a hipocrisia é mais facilmente exposta quando as pessoas comparam observações, a busca da fidedignidade transforma-nos em ávidos consumidores de boatos. Em troca, nossa reputação torna-se nosso bem mais precioso, e somos motivados a protegê-la (e realçá-la) com exibições flagrantes de generosidade, simpatia e integridade e a ficar melindrados quando ela é contestada.

A capacidade de resguardar-se contra emoções simuladas pode, por sua vez, ser usada como arma contra emoções reais. Uma pessoa pode proteger suas próprias trapaças atribuindo falsos motivos a outra pessoa – dizendo que esta não está de fato magoada, não é amiga, não se sente grata, culpada, etc, quando na realidade a pessoa está sentindo sinceramente essas emoções. Não admira que alguns autores afirmem que a expansão do encéfalo humano foi fortemente modulada por uma corrida “armamentista” cognitiva, impelida pelas emoções necessárias para regular o altruísmo recíproco.

Essas questões serão discutidas de maneira mais detalhada no Curso sobre Neurobiologia das Emoções que lançaremos em breve no site do Neurocurso .

Cleiton Lopes Aguiar

Baseado em: Steven Pinker. Como a mente funciona. São Paulo. Companhia das Letras. 1998